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Jogo do bicho e futebol: a ligação histórica no Rio de Janeiro
O jogo do bicho nasceu em 1892 no zoológico de Vila Isabel, no Rio, como sorteio para atrair visitantes. Proibido e enquadrado como contravenção em 1941, sobreviveu nas ruas e, no século XX, seus banqueiros se aproximaram do carnaval e do futebol carioca, como mostra a história do Bangu nos anos 1980.
Publicado em (horário de Brasília)
Um sorteio para salvar um zoológico
A origem do jogo do bicho é das mais bem documentadas entre os jogos populares do Brasil. Em 1892, o barão João Batista Viana Drummond, dono do Jardim Zoológico de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, precisava de dinheiro para manter o parque. A solução foi um sorteio: cada ingresso trazia a figura de um animal, e ao fim do dia um deles era revelado. Quem tinha o bilhete com o bicho do dia ganhava um prêmio.
Eram 25 animais, os mesmos que ainda hoje organizam a tabela do jogo, do avestruz à vaca. A ideia pegou tão depressa que o sorteio escapou do zoológico. Em poucos anos, havia gente vendendo apostas nas ruas do centro do Rio, desvinculadas de qualquer ingresso, e o bicho passou a ser associado a números.
Da proibição à contravenção
A popularidade chamou a atenção das autoridades desde cedo, e o jogo foi proibido ainda no começo do século XX. O enquadramento que vale até hoje veio em 1941, com o Decreto-Lei 3.688, a Lei das Contravenções Penais. O artigo 58 trata especificamente de explorar ou realizar a loteria denominada jogo do bicho.
A proibição não acabou com o jogo; empurrou-o para a informalidade. Os resultados passaram a circular de boca em boca e em papéis afixados em muros e postes, o que deu origem à expressão "deu no poste", usada até hoje para falar do resultado do dia. Os banqueiros do bicho, por sua vez, acumularam dinheiro e influência justamente por operarem fora do sistema formal.
O carnaval e o futebol como vitrine
Ao longo do século XX, parte dessa influência foi investida em duas paixões cariocas: o carnaval e o futebol. Banqueiros do bicho tornaram-se patronos de escolas de samba, financiando desfiles cada vez maiores, e aproximaram-se também de clubes de futebol, sobretudo os de bairro, onde um mecenas podia mudar o destino de um time.
O caso mais lembrado é o do Bangu Atlético Clube. Nos anos 1980, o clube da Zona Oeste tinha como patrono o banqueiro do bicho Castor de Andrade e montou um elenco capaz de brigar com os grandes. Em 1985, o Bangu chegou à final do Campeonato Brasileiro e perdeu o título para o Coritiba na disputa de pênaltis, no Maracanã. Foi o ponto mais alto de uma campanha que até hoje é citada quando se fala da relação entre o bicho e o futebol.
Essa proximidade teve preço. Em 1993, a juíza Denise Frossard condenou a cúpula do jogo do bicho no Rio de Janeiro, num dos julgamentos mais simbólicos da história da contravenção no país. A relação entre o bicho, o carnaval e o futebol passou a ser tratada com mais atenção pela imprensa e pela Justiça a partir dali.
O que mudou com a internet
O papel no poste deu lugar à tela do celular. Hoje, quem procura o resultado do dia encontra páginas que organizam as extrações por data, estado e horário, e a própria aposta migrou para plataformas digitais com pagamento eletrônico. O Milhar do Sonho é um exemplo desse movimento: reúne resultados por estado, a tabela dos 25 bichos e a página de cotações num mesmo endereço.
O que não mudou é o enquadramento legal. A mudança de meio, do papel para o aplicativo, não alterou o artigo 58 da Lei das Contravenções Penais, e o jogo do bicho continua fora das modalidades de aposta autorizadas pela legislação federal. Quem acompanha o assunto deve ter isso claro antes de qualquer decisão.
Por que essa história interessa a quem gosta de futebol
Para quem acompanha tabelas e resultados de futebol, a história do bicho ajuda a entender uma parte menos contada do esporte no Rio: o financiamento informal de clubes pequenos, a formação de elencos fora do padrão e a disputa de influência que acontecia fora de campo.
Ela também explica por que, até hoje, o vocabulário do jogo aparece no cotidiano do torcedor. Dezena, centena, milhar, cabeça e "deu no poste" são expressões que atravessaram gerações e continuam sendo entendidas em qualquer arquibancada do país.
Perguntas frequentes
- Quando e onde surgiu o jogo do bicho?
- O jogo do bicho surgiu em 1892, no Jardim Zoológico de Vila Isabel, no Rio de Janeiro. O barão João Batista Viana Drummond criou um sorteio com 25 animais impressos nos ingressos para arrecadar dinheiro e manter o zoológico funcionando.
- O jogo do bicho é legal no Brasil?
- Não. Desde 1941 o jogo do bicho é tratado como contravenção penal pelo Decreto-Lei 3.688, no artigo 58, e ele não está entre as modalidades de aposta autorizadas pela legislação federal. A migração para a internet não mudou esse enquadramento.
- Qual a relação entre o Bangu e o jogo do bicho?
- Nos anos 1980, o Bangu Atlético Clube teve como patrono o banqueiro do bicho Castor de Andrade. Com esse apoio, o clube chegou à final do Campeonato Brasileiro de 1985, perdida para o Coritiba nos pênaltis, no Maracanã.